Higino Cunha: palavra, república e fundação da consciência intelectual do Piauí
Higino Cícero da Cunha figura entre os nomes estruturantes da vida intelectual e institucional do Piauí. Escritor, jornalista, professor, advogado e político, foi um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras e um dos responsáveis por conferir à Casa um sentido duradouro de missão cultural, rigor intelectual e compromisso republicano.
Nascido em 11 de janeiro de 1858, no sítio Bacuri, então pertencente ao município maranhense de São José das Cajazeiras – hoje Timon -, Higino Cunha formou-se na confluência de territórios e ideias. A proximidade geográfica e simbólica com Teresina antecipou o destino intelectual que ali se consolidaria. Iniciou os estudos na casa paterna, sob orientação dos irmãos mais velhos, e, ainda adolescente, transferiu-se para a capital piauiense, onde conciliou trabalho no comércio e formação escolar. Desde cedo, a disciplina do ofício caminhou ao lado da vocação intelectual.
Aos vinte anos, seguiu para São Luís, onde realizou os preparatórios jurídicos entre 1878 e 1880. Em 1881, ingressou na Faculdade de Direito do Recife, então um dos mais importantes centros formadores da elite intelectual brasileira. Durante o curso, colaborou com o jornal Folha do Norte, exercitando uma escrita marcada pela argumentação, pela clareza e pela intervenção no debate público. Diplomado em 1885, retornou ao Piauí, dando início a uma trajetória que uniria Direito, política e letras.
Sua atuação política inscreve-se em um dos momentos mais sensíveis da Primeira República. Após a renúncia do marechal Deodoro da Fonseca, em novembro de 1891, o governador do Piauí, Gabriel Luís Ferreira, foi deposto, sendo instaurada uma junta governativa. Higino Cunha integrou esse colegiado provisório, ao lado de Clodoaldo Freitas e outros nomes de relevo, evidenciando o reconhecimento de seu equilíbrio jurídico e de sua autoridade moral.
Em 1895, transferiu-se para o Amazonas, onde exerceu a advocacia e o jornalismo, colaborando com A Federação e O Estado do Amazonas. O retorno ao Piauí, no ano seguinte, após desentendimentos políticos, marcou nova etapa de sua vida pública: tornou-se juiz de direito, reafirmando o papel do Direito como eixo de sua atuação intelectual e institucional.
Entretanto, é no campo da cultura e da memória que sua presença alcança dimensão histórica mais profunda. Higino Cunha foi um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, em 1917, tornando-se o primeiro ocupante da Cadeira nº 7, cujo patrono é Anísio Auto de Abreu. Não apenas inaugurou a cadeira, como lhe conferiu densidade simbólica e intelectual. Presidiu a APL por dois longos períodos – de 1919 a 1924 e de 1929 a 1943 – somando cerca de vinte anos à frente da instituição. Sob sua liderança, a Academia consolidou-se como espaço de preservação da memória literária, de produção intelectual e de afirmação da cultura letrada no Piauí.
Em 1918, presidiu também o Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, reforçando sua condição de guardião da história estadual. No magistério, atuou como professor do Liceu Piauiense, da Escola Normal e da Faculdade de Direito do Piauí, formando gerações de estudantes sob a convicção de que educação, ética e cidadania são indissociáveis.
Como jornalista, colaborou com diversos periódicos – Diário do Piauí, A Democracia, Correio de Teresina, Gazeta do Comércio e A República – exercendo um jornalismo de ideias, voltado à reflexão crítica e ao debate institucional. Foi ainda procurador dos feitos da Fazenda estadual, cargo no qual se aposentou em 1925, encerrando uma longa trajetória no serviço público.
Sua obra intelectual revela um autor de ampla erudição e rara versatilidade. Publicou poesia, ensaios filosóficos, discursos acadêmicos, estudos históricos, textos jurídicos e memórias. Entre seus títulos destacam-se Pro Veritate (1883), Asineide (1897), O idealismo filosófico e o ideal artístico (1913), Discursos acadêmicos (1921), História das rebeliões no Piauí (1924), O assassínio do juiz federal (1928), A Igreja Católica e a nova constituição da República (1934) e Memórias: traços autobiográficos (1940). Em todos, sobressai o rigor argumentativo, a preocupação com a verdade histórica e o apreço pela forma.
Higino Cícero da Cunha faleceu em Teresina, em 16 de novembro de 1943, quando ainda presidia a Academia que ajudara a fundar. Sua morte encerrou uma vida longa, coerente e profundamente comprometida com as instituições, a palavra escrita e a construção da consciência intelectual do Piauí.
Na história da Academia Piauiense de Letras, seu nome não se limita à condição inaugural. Trata-se de uma presença fundadora, decisiva para a consolidação institucional da Casa e para a definição de seus princípios intelectuais. Sua trajetória sintetiza um período em que a escrita, o magistério e o serviço público constituíam dimensões complementares de um mesmo projeto republicano de formação cultural e cidadã.
Fonte: https://www.academiapiauiensedeletras.org.br/higino-cunha-palavra-republica-e-fundacao-da-consciencia-intelectual-do-piaui/