Economia

O EVENTUALISMO E O CIRCUNSTANCIALISMO DE DOAÇÕES COMO A DO ITAÚ ÚNIBANCO

O EVENTUALISMO E O CIRCUNSTANCIALISMO DE DOAÇÕES COMO A DO ITAÚ ÚNIBANCO

O EVENTUALISMO E O CIRCUNSTANCIALISMO DE DOAÇÕES COMO A DO ITAÚ ÚNIBANCO

 

Magno Pires

 

As desigualdades sociais, econômicas, culturais, raciais, educacionais do Brasil são igualáveis e/ou semelhantes exclusivamente às de países miseráveis africanos, da América Central e de algumas nações da própria América Latina. Mas há países da América Latina que são menos desiguais que o Brasil. Apresentam condições nos aspectos acima melhores que as do povo brasileiro.

E essas características estão à vista de políticos e empresários. Ou de todos. O estado de necessidade, de pobreza e de fome que assola milhões de brasileiros, está estampado na face marcada pelas rugas, na boca sem dentes, nas mãos calejadas pelo trabalho rude, na fala embargada e tímida e no físico apequenado, raquítico, esquelético.

Nenhum brasileiro afortunado e rico, desde que ande nas ruas das cidades pequenas, médias e grandes, nas comunidades interioranas, nos assentamentos, nas favelas e no interior do país, deixará de perceber esse quadro de fome e desigualdades, com milhões de habitações e/ou moradias cobertas de palha de babaçu, paredes de taipa, chão batido, sem luz, embora o programa Luz para Todos, sem saneamento de água e esgoto, especialmente no Norte e Nordeste. E crianças nuas, subnutridas, pálidas e corroídas pelas lumbricoides. E sem escolas, embora a existência do FUNDEB, e sem tratamento de Saúde, ainda que exista o SUS. Ainda são enormes e profundas a exponencial intensidade das desigualdades brasileiras.

Entretanto, os empresários que viraram doadores e humanitários eventuais, devido ao Coronavírus, subestimaram esses cenários ou sempre jogavam a solução para os governos da União, dos Estados e dos municípios, porque eles já cumpriam com as suas obrigações constitucionais porque pagavam altos impostos.

Ou esses empresários ignoravam os dados científicos levantados pelo IPEA e o IBGE, instituições federais de pesquisas, que sempre dispõem à sociedade esse enorme manancial de dados, levantados em todo o Brasil, sobre as condições de vida dos brasileiros em todas as vertentes e em todas as regiões.

As condições sociais, educacionais e econômicas do Brasil são gravíssimas e a crise do Coronavírus apenas agravou e aprofundou esses dados e os expôs a realidade brasileira, com a imprensa potencializando corretamente. E assim causou essa histeria da pandemia a ponto de sensibilizar esses empresários, que fazem doações fantásticas, como o Itaú-Unibanco, atitude que ainda não foi seguida por nenhum outro banco, com o mesmo valor da importância doada, pelo conglomerado bancário paulista e familiar.

E por que esses empresários não fazem dessa conduta uma decisão permanente, anual, e não apenas eventual e circunstancial como agora? Se todos destinassem durante um período de vinte anos, vários problemas nacionais seriam solucionados, como o habitacional, do saneamento básico de água e esgoto, da iluminação domiciliar, pagamento de salários mais dignos aos professores, aos médicos e outros profissionais que trabalham no interior do país.

Dando-se, como exemplo, essa doação do Itaú-Unibanco, de R$ 1 bilhão de reais, essa destinação, em vinte anos, somariam R$ 20 bilhões suficientes para construir até quinhentas  mil casas populares. Evidente que o Governo Federal possibilitaria algum incentivo ao Banco, isentando-o de algum imposto e/ou taxa. Seria uma grande contribuição ao déficit habitacional.

A concentração da renda e sua distribuição, com os malefícios causados pela enorme concentração e os fortes benefícios resultantes da distribuição, representam os dois mais graves problemas brasileiros. E enquanto não houver a desconcentração e a consequente distribuição, o país permanecerá apresentando esse quadro crítico e insolúvel a persistirem essas desigualdades anotadas no preâmbulo deste trabalho. 

E essas doações eventuais e circunstanciais, por conta de um acontecimento extraordinário, como a pandemia, poderão perder parte do seu significado relevante e valioso.  

 

Magno Pires é Membro da Academia Piauiense de Letras e o Vice-presidente, ex-Secretário da Administração do Piauí, Advogado da União (aposentado), jornalista, administrador de empresas, Portal www.magnopires.com.br, e-mail: [email protected]